quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

BOM-DIA, BELÉM!



Há muito, mas muito que aqui no meu peito
murmuram saudades azuis do teu céu.
Há muito que apalpos de ausências me acordam
pisando alamedas de estrelas casando
na lua luando telhados que bordam
goteiras de musgo que a chuva cantou...


O que és que tens feito que estás tão faceira,
mais jovem que os jovens irmãos que eu deixei,
mais culta que toda ciência da terra,
mais terra, mais dona do amor que te dei?


Onde anda meu povo, meu rio, meu peixe,
meu sol, minha rede, meu tambatajá,
a sesta, o sossego da tarde descalça,
o sono suado do amor que se dá?
E o orvalho invisível na flor se embrulhando
com medo das asas do galo cantando
cantigas varando silêncios de lar?


Belém, mãe que editaste meu verso
(e eu era criança - teu mundo era meu...),
se tu não lembras que sou viva ainda
soletro meu nome... Sou eu, A-dal--cin-da,
poeta dos versos que o amor esqueceu.
Me abraça apertado que eu venho chegando
sem sol e sem lua, sem rima e sem mar,
coberta de neve, lavada do pranto
dos ventos que engolem cidades no ar.


Procuro meu barco de vela azulada
que foi de panada sumindo sem dó.
Procuro a lembrança da infância na grama
dos campos tranqüilos do meu Marajó...
Belém, minha terra, meu pão minha casa,
meu sol de janeiro a janeiro a suar!


Belém, minha selva metropolitana,
me beija e me abraça que eu quero matar
a doida saudade que eu nunca te disse
(torturas de exílio que o tempo descobre...)
Sem Círio da Virgem, sem cheiro cheiroso,
sem a chuva que lava pecados de pobre!


Cochilo saudades da noite abanando
teu leque de estrelas, Belém do Pará!
Só quero uma esteira na terra e o ruído
da enchente de ouro do rio Guajará!

- Texto retirado do livro:
Adalcinda Camarão
Antológia Poética / Adalcinda. - Belém: Cejup, 1995. - (Coléção Verso e Reverso, 7)

- Autografo:
Para Larissa, recordação com admiração de Adalcinda
Cirio de Nazaré, 13 de outubro de 2001.
Belém do Pará

Parabéns, Belém!

Nenhum comentário:

Postar um comentário