sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Entrevista com Marcelo Camelo: fotos, crítica, fãs e palmitos

Marcelo Camelo não gostava de palmito, mas aprendeu a gostar. Marcelo Camelo não gosta de posar para fotos. E ainda não aprendeu a gostar. Conversei com ele sobre essas e outras coisas, por ocasião do lançamento de "Sou" (Zé Pereira, selo de Camelo), seu primeiro CD solo. Da entrevista, fiz uma reportagem que está no Segundo Caderno de hoje - ao lado de uma crítica do disco assinada por Antônio Carlos Miguel. Muita coisa que Camelo falou, claro, não coube no papel. Segue aqui, então, um pouco mais das idéias do compositor. IMAGEM: "(Depois de resistir em posar para as fotografias) Acho que se fizermos a foto aqui, enquanto conversamos, tem alguma verdade, é o registro de algo que está acontecendo. Quando saímos daqui e vamos para lá, e e eu tenho que andar, ou ficar parado numa posição, a foto não representa nada, não mostra nada de mim. Já é estranho para mim ver minha foto, como imagino que seja estranho para qualquer pessoa ouvir sua voz gravada. Porque uma foto não é como um espelho, a imagem ali não é invertida. E eu me percebo muito mais pelo que eu vejo do que pela minha imagem. Agora, por exemplo, me percebo muio mais pelo seu rosto, que estou vendo, do que pelo meu. E a foto tira um pouco do sabor da música. Pra que interessa saber que essa é a cara do sujeito que faz aquelas músicas?" SOLIDÃO: "Não sou mais solitário que ninguém. A solidão que canto no CD (o tema aparece em muitos versos) é a de todo mundo. Todos somos meio sozinhos, passamos a vida tentando fazer contatos, conexões. Ter parado de viajar, ter ficado mais sozinho em casa nesse período de feitura do CD talvez tenha me dado mais consciência dessa solidão." REPERTÓRIO: "Quase tudo foi feito depois da parada do Los Hermanos. As exceções são "Santa chuva", que foi gravada no primeiro disco da Maria Rita, e "Liberdade", que cheguei a fazer num programa de TV ainda com a banda." LETRAS: "Não gosto de falar sobre as letras porque tudo já está nelas. A canção já é uma tentativa de espremer tudo. Se o que sai parece ambíguo ou pouco claro é porque o sentimento é assim mesmo." NASCIMENTO DO "SOU": "Minha única diretriz foi estar desatento. Fui fazendo as coisas, organizando em blocos, mas de um jeito míope, sem planejamento. Primeiro veio 'Copacabana', depois 'Vida doce', tudo muito fluido. Um disco é sempre o retrato de um período, um ciclo. Esse é uma reunião de canções distraídas. Não gosto de disciplina." FAMÍLIA NO CD: "É a minha vontade de acreditar nas coisas próximas, nas pessoas próximas. E um cansaço de depositar esperanças no alheio, naquele produtor australiano fantástico, naquele estúdio maravilhoso. Meu pai (produtor-executivo do CD) era um CDF, foi o melhor aluno do Colégio de Aplicação. Ele começou a participar naturalmente, ajudou a dialogar com o Sonora (site parceiro de Camelo em "Sou"). Minha mãe é pintora, já fiz músicas com o Los Hermanos que falam disso (duas pinturas dela estão no encarte). (Além do pai e da mãe, o irmão Thiago escreveu o texto para a imprensa sobre o CD). Rodrigo Linares, que fez a capa, é amigo. Descobri o poema que está na capa vendo na casa dele, porque nunca foi publicado. Ou seja, não foi simplesmente trazer o poema para o CD. O CD é sobre minha relação com Rodrigo, é sobre o poema também." CONVIDADOS: "Todos vieram por meu desejo. Gosto muito do Hurtmold. Tinha a sensação que a habilidade deles em construir texturas seria ótima para o disco. Dominguinhos ouviu a canção ("Liberdade") três vezes e saiu tocando. Mallu Magalhães foi no dia também. Ela é incrível, de uma espontaneidade... Sou fã dela e de Dominguinhos em iguais proporções. Dominguinhos, em cada take, improvisava uma abertura e um encerramento diferente. Dá para fazer um disco só com isso. Com Clara Sverner, ensaiei na casa dela. Ela tocou Debussy para mim, foi maravilhoso. As músicas que ela toca eu fiz pensando nela e em Guiomar Novais." AMADURECIMENTO: "Do primeiro disco do Los Hermanos até agora foram 10 anos. Multiplica isso por 365 dias, são muitas voltas em torno das mesmas coisas. Não dá para continuar igual. Mas, por outro lado, às vezes penso que não mudei tanto assim." MPB, ROCK, POP ETC.: "Essas palavras não fazem nenhum sentido para mim. Robert Anton Wilson disse que o ser humano nomeia as pequenas coisas que aprende do universo e depois rasteja sobre essas palavras. Meu diálogo é com o som, que é muito anterior à decodificação da linguagem. Procuro, na minha vida cotidiana, ficar um pouco burro para as palavras." CRÍTICA: "O debate crítico é uma dimensão muito pequena da percepção sobre a minha obra. Me interessam mais as reinterpretações de minhas canções que vejo no Youtube. Elas me emocionam. É tudo muito pessoal, as pessoas nos seus quartos. Quero estar em sintonia com essas figuras. Quero que minha música seja assim, saia desse quarto." GOSTAR: "Eu não gostava de palmito. Mas não gostar de algo é muito ruim, procurei me esforçar para gostar. E hoje adoro palmito. Com música sou assim também. O tempo me ensinou que gostar é muito melhor que não gostar. E quando afirmo gostar de algo, não estou defendendo nada. Isso já foi uma vontade de afirmação estética, mas não é mais. Você acha que quando Sandy e Junior me convidaram para o 'Acústico' deles eu pensei: 'Ah, 'Agora vou fazer uma grande piada' ou 'agora vou ver o que vão falar'? Estou me lixando para o que pensam. Fui porque amo aqueles meninos e me emocionei com eles muitas vezes. " INDIVIDUALIDADE: "É difícil falar que um disco foi bem recebido ou mal recebido. Porque cada um ouve de um jeito. É como pensa o Professor Pacheco, conhece? Ele é um educador que trabalha sobre a individualidade das pessoas. Os alunos não se organizam por idade, e sim por grupo de interesse. Depois de se formarem os grupos, o aluno ganha a tarefa de apresentar um trabalho sobre o tema daquele grupo, por exemplo Revolução Francesa, em 15 dias, usando todas as fontes que conseguir. Quando vai apresentar, ele pode escrever três coisas no quadro: "Já sei", que indica que ele aprendeu; "Posso ajudar", mostrando que ele pesquisou até demais e pode dar aula; ou "Preciso de ajuda". A partir daí, a turma se organiza." MENOS POP: "Não sei se estou menos pop que no início do Los Hermanos. Você fala das harmonias... Pode ser, mas 'Garota de Ipanema' também tem suas inversões harmônicas." VIOLÃO: "Só sei tocar minhas músicas, sou a desgraça das rodinhas de violão". MÚSICA E PIZZA: "Outro dia, estava passando uma banda na TV e eu comentei com a minha namorada: 'Música é que nem pizza, por pior que seja é bom'. Depois aumentei o volume e disse: 'Se bem que às vezes eu mesmo discordo disso'." TEMPO: "Tem horas que tenho impressão de estar vivendo como o cara daquele filme, 'O feitiço do tempo'. Só que em vez de viver o mesmo dia, tenho impressão que vivo o mesmo minuto repetidas vezes. Às vezes acho que lembro do futuro. Não sei, na verdade, se existe um passado e um futuro assim, separados. Não sei se a música que eu acabei de fazer me soa familiar porque ecoa do futuro ou se é porque alguem já fez e eu estou copiando. Morro de medo de tomar um processo por plágio." AMBIGÜIDADE: "No disco, falo que 'ando em frente pra sentir saudade'. Vejo as coisas com essa ambigüidade. A frase 'Coragem de fugir é medo de ficar', nome de um disco da banda Lorena Foi Embora, mudou minha percepção do mundo." O QUE TEM OUVIDO: "Além dos moleques que tocam minhas músicas, que são demais, tenho ouvido Os Cabinha, do Ceará. E 'Jaçanã Picadilha', conhece? Outro dia ouvi Renato Teixeira, ele faz as coisas mais lindas. A abertura de 'Romaria', no qual ele fala 'É de sonho é de pó'... Isso é lindo. Depois tocou aquela da Joanna, Meu namorado é um sujeito ocupado' (canta), que não sabia que era dele. E um amigo me disse que aquele jingle 'Roda, roda/ Roda baleiro, atenção/ Quando o baleiro parar põe a mão/ Pegue a bala mais gostosa do planeta/ Não deixe que a sorte se intrometa', que também é lindo." LOS HERMANOS: "Eu estava cansado da estrada, do excesso de shows. Queria estar mais tempo em casa. Isso foi do meio para o fim da turnê do '4'." OS IMPREVISÍVEIS: "Tenho vontade de fazer um próximo trabalho com música abstrata. Será a banda Os Imprevisíveis. A formação sou eu e as circunstâncias. Boa, né?" fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/mpb/

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